quinta-feira, 18 de março de 2010

O Buraco

Inicialmente as pessoas deram pouca importância ao buraco. Um ou outro jovem casal apontava-o rindo, mas logo em seguida distraía-se com a corneta do sorveteiro ou uma briga entre cachorros.

Após as crianças começarem a desaparecer, foi que se começou a especular sobre a origem do buraco, em que circunstâncias surgira e o porque de ficar ali suspenso, imóvel no centro da praça, ao lado da santa.

Aos poucos a monocromia do buraco foi se transformando e dando lugar a cores ora intensas e vibrantes como a aurora ora sutis, porém pesadas como o céu de outono. Muito se comentava, mas era durante a noite que acontecia o grande espetáculo: luzes estroboscópicas partiam em direção ao céu, e melodias habilidosamente harmoniosas ecoavam ao vento, buscando os ouvidos da população do vilarejo, criando um ambiente etéreo. Multidões se reuniam para presenciar extasiadas o momento paralisante e encantador.

- Obra do demônio! É o fim dos tempos! Diziam algumas idosas beatas, indignadas com o comportamento de seus conterrâneos.

O buraco se tornou alvo de diversos estudos, o que resultou no surgimento de várias teorias a respeito de sua origem, e do objetivo de sua existência. Alguns diziam que o buraco viera da abóbada celeste, com ordem direta do Arcanjo Miguel, com a missão de unir os povos do planeta, neste início de milênio. Para outros se tratava de um artefato alienígena, instalado para mapear e modificar o DNA humano, criando uma raça de Superseres, consequentemente dominando o planeta.

A variedade de opiniões sobre o buraco alavancava discussões calorosas tanto entre populares, como entre especialistas. Coisas estranhas aconteciam. Dizem que, certa vez, foram ouvidos gritos seguidos de risos. Lembro-me de ter presenciado o dia em que uma revoada de abutres saiu de dentro do buraco, em direção ao céu, quando, ao atingir a estratosfera literalmente explodiram, causando uma chuva de sangue e penas negras. O sinistro espetáculo recebeu atenção da mídia regional. Movidas pela curiosidade, as pessoas passaram a promover excursões e peregrinações ao buraco. Alguns odiavam-no, outros temiam-no. Muitos o exaltavam, sobretudo nas épocas de chuva de níquel.

O vilarejo cresceu, se tornando uma metrópole mundialmente conhecida, destino certo nos pacotes de viagem. Com o tempo, não mais se falou no desaparecimento das crianças.

3 comentários:

  1. Eu ainda estou aguardando o teu livro irmão rs, curto demais ler o que tu escreve! Muitas vezes eu ainda não conheço o significado de algumas palavras que tu fala, mas tu fala com tanta sinceridade que no contexto eu sempre entendo tudo :D Eu vejo amor em cada palavra que tu escreve, continue sempre assim!

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  2. Poxa Dan, tu sabe que eu sou só um grãozinho de areia no olho do furacão. Escrevo por paixão, e realmente não acredito que o faça tão bem.
    Tua amizade é muito importante meu irmão, sempre dando força pra continuar, com qualquer empreitada a que eu me meta.

    Te amo.

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  3. Poxa, concordo com o Daniel velho, das coisas que voce escreveu e que eu jah li, nossa kra, nao faço a menor ideia da onde voce tira essas coisas, mas na boa, voce consegue fazer isso muito bem, parece ate que sao coisas que estao aprisionadas dentro de voce e so assim voce consegue solta-las. Força na peruca irmao, continue sempre assim o/

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Eu ia e vinha...

Eu ia e vinha...
... e era lá que eu me perdia, no espaço entre teus lábios.

Um travessão e uma exclamação.