quinta-feira, 1 de abril de 2010

Influência

Eu a conheci pela internet. E nossos mundos não são muito diferentes, estudávamos no mesmo colégio, provavelmente nos esbarramos pelos corredores algumas vezes. Depois ficamos amigos, e eu descobri que temos muito mais em comum do que eu imaginava, e apesar de pessoalmente nós termos conversado por poucos minutos, a presença dela é trirreal no meu dia-a-dia, e a admiração que tenho pela Andressa é ENORME. Eu gosto muito da maneira visceral como ela se expressa. Por isso, pedi pra ela escrever um texto ao seu estilo, que eu realmente pago pau.

Le Fabuleux Destin de Moi

“Não é o perfeito, mas o imperfeito, que precisa de amor.”

Oscar Wilde.

Ela gostava de observar de longe. Bem de longe, era como se ela fosse invisível... (Talvez outrem a fizera translúcida, apenas um semblante insosso no meio da multidão muda) E ela não era invisível realmente? Quiçá fosse, se não ela já estava muito perto disso. Observava por trás do livro que lia, no fundo da música que ouvia (escondida atrás da última nota perdida pelo ar), entre os rostos desconhecidos, por trás das lentes dos óculos... (Que pareciam portar alguma mágica, seus olhos brilhavam e enxergavam além) Talvez ela os usasse de tanto esforçar os olhinhos escuros para ver o que estava distante.

Ela gostava de roubar lembranças. Pequenas pedras em seu caminho, rançosas e sujas – e com um sopro, tirava suas imperfeições, pequenos grãos de areia e folhas – guardando a pedra no bolso. Em casa, guardaria em alguma gaveta, e quando abrisse, lembraria daquele lugar, momento, daquela imagem, recordação e textura que construíam uma espécie de imaginário particular, onde tudo era criado apenas por ela. Ás vezes usava essas mesmas pedras para fazer ricochetes na água. Era a Madrinha dos Abandonados; ela era a única que bem entendia aquela criança que brincava sozinha no balanço do parque, dando impulso com as próprias pernas. Ela ajudava os desconhecidos também, ás vezes ajudava uma dessas crianças a se balançar. Talvez ajudasse por medo de cair no esquecimento – ser lembrada como quem ajudou quem um dia já esteve só.

Ela gostava de imaginar situações. Tinha um ar alheado de tudo e de todos. Mal tinha noção de onde pisava. Um dia encontrou alguém e sentiu que eram parecidos, ela e ele. O ar alheado pode ser por estar pensando em alguém... Prefere imaginar com um ausente do que criar laços com os presentes. Ou talvez tudo faça para emendar a baralhada da vida dos outros. E a baralhada da vida dela, quem emenda? Ninguém. Talvez ela gostasse daquela vida baralhada. Isso se chama realidade, mas não é isso que ela deseja. Ela deseja alguém para emendar a sua vida também. Sem ti, as emoções de hoje seriam apenas a pele já morta das emoções do outrora. Ele a conhece? Claro que conhece. Desde sempre, nos sonhos.

E quando alguém pergunta: “Como anda a sua vida?”, a resposta é sempre a mesma. Mecânica, é como ela anda. O tempo passa, seu coração vai ficar doente e quebradiço, como os ossos do homem de vidro. Vá em frente, raios.
Um dia cor-de-laranja, para alguém segurar sua mão e sair para ver o sol. Ou a lua. É tudo o que ela quer.

[ Andressa M. ]

http://www.youtube.com/watch?v=dC5tRl2el2Q

Nota: Baseado em Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain. E em mim também.




2 comentários:

  1. É um belo post, adoro tudo o que a Andressa escreve. Ela é brilhante e com muita naturalidade, o que é divino. (:

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  2. E ela escreve com o coração e fala como os olhos.
    Ah e ainda é composta de belos vestígios de Amélie (:
    Deveras encantadora, eu diria.

    Discrepância?
    Que nada.

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Eu ia e vinha...

Eu ia e vinha...
... e era lá que eu me perdia, no espaço entre teus lábios.

Um travessão e uma exclamação.