segunda-feira, 5 de abril de 2010

Mosaico

Espera no corredor frio. Mais um pouco de café, para se manter aquecido e suportar. Ou fingir. São onze dias, que mais lhe parecem a eternidade. Pensa nos papéis em cima da mesa, cartas nunca escritas. O mundo tornara-se grande demais para que pudesse ser notado. Busca forças, sabendo que não pode encontrar. O único momento em que se sente vivo, em meio ao caos que se instalou em sua mente comprometendo-lhe a sanidade, é o momento em que pode visualizar o Anjo.

E lá ele está. Imóvel. Respiração leve. Os olhos fechados,inspiram no observador uma sensação momentânea de paz e tranqüilidade. Somente momentânea, a sensação.

O Anjo sofre e Ele não sabe como agir, tem vontade de fugir, pra longe, mas não poderia abandoná-lo. Ele vê que os medicamentos poupam o Anjo de sentir dor e sente em não poder transmiti-la, a dor, para o seu próprio corpo. Pensa na injustiça, na intolerância. É o maior teste que ele já enfrentou em sua vida...

Uma cadeira ao canto do corredor serve-lhe de descanso confortável nas noites gélidas e insones. Pensa que talvez sua permanência naquele ambiente mórbido, o esteja tornando frio. Improvável, quando põe a mão sobre o peito sente que bate, terno e caloroso, um coração. O nível de exaustão a que seu corpo chegou, faz com que um simples recostar de cabeça o leve a adormecer. No intermédio de seu estado de consciência, o som dos passos no corredor funde-se com as imagens oníricas geradas por sua mente. O Anjo está sempre presente em seus sonhos. Sorrindo, pulam poças d’água. Ele reconhece o próprio reflexo numa delas, completamente diferente da face desgastada pelos acontecimentos recentes.

Sabe que não pode agüentar firme por muito tempo, o equilíbrio está prestes a ser abalado.

Espera.

Ele é um predestinado a superar. Ainda que por um instante, tem a sensação de que vive algo semelhante à uma promessa feita com os dedos cruzados: algo que está para acontecer e nunca acontece, um momento que está para chegar, mas nunca chega.

De mãos dadas com o Anjo, ouve uma melodia, que os conduz a um campo onde milhares de crianças correm, livres, pouco depois começam a voar, como borboletas. Toca uma flor que está entremeada nos cabelos do Anjo, revoltos pelo vento. Recebe um sorriso como resposta.

-Hey você! Acorde. É chegado o momento.

As imagens se desfazem...

Ele sabe que não tem volta. Mas ainda tem muito a perder.

California- Copeland

http://www.youtube.com/watch?v=obJNiSbj3m0

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Eu ia e vinha...

Eu ia e vinha...
... e era lá que eu me perdia, no espaço entre teus lábios.

Um travessão e uma exclamação.